Três olhares sobre Manágua

© Paulo Hernâni

Hay tanto maíz que sembrar tanto niño que instruir tanto
enfermo que curar tanto amor
que realizar tanto canto. Yo canto
un país que va a nacer.

Ernesto Cardenal

Ao Fausto e ao José Mário Branco, companheiros de viagem

I

As noites de Manágua são mais claras
luzes imensas de estrelas pequeninas
pousadas nas árvores e nos rostos das mulheres.
Pergunto aos amigos o nome secreto do destino
e eles apenas sorriem. Como o poeta
de Solentiname no dia da libertação
ou aquela rapariga de olhos transparentes
que me aponta um qualquer astro inacessível
do outro lado do futuro.
O destino, então: talvez em Manágua
ou Jinotepe
onde os homens sabem das coisas que viveram
os ódios todos
as mortes
e o mercado de Masaya queimado pedra a pedra
por vingança ou desespero.
O destino ainda: em Matagalpa
onde a floresta se confunde com os risos das crianças
ou quem sabe em qualquer rua
num recanto sem nome onde morreram com a dignidade possível
dois velhos camponeses e um soldado anónimo.

Seguimos em frente dizem-me os amigos
e os seus olhos brilham de tranquila alegria
iluminados pelas minúsculas estrelas verdes de Manágua. Seguimos
em frente
até onde a poesia nunca dorme
inquiteta
como os corações enormes que a fizeram nascer.

 

II

Loucos, talvez, os meus amigos. Loucos como o poeta
fascinados por certezas e desejos inventados num sabor de tamarindo.
Loucos até como as vacas que cruzam a estrada à minha frente
esquecidas das regras civis de comportamento. E no entnato
vigilantes
como os amigos que descubro em Manágua
os amigos meus atentos que constroem a cidade e os lugares incomuns
do reencontro.
Perdoem-me se vos falo assim: ignorante dos mandamentos
estruturais e purificadores do texto
alheio às vírgulas prudentes e pouco cumpridor
de metodologias semânticas. Perdoem-me as omissões
descritivas de generalidades perdoem-me o rum e os desencontros
do léxico. Mas é urgente dizer-vos dos meus amigos
felizmente loucos
capazes de arrasar vulcões ao som de uma guitarra
que anuncia o prazer sem nome do dia seguinte.
É necessário falar deles sem as palavras calculadas dos locutores de serviço
ouvir a música das suas bocas
beber cada desejo
aprender a linguagem das sementes apaixonadas.
Loucos sim os meus amigos. Sequisoso e tranquilos
tal e qual as madrugadas de Manágua. E com eles
percorremos descalços as areias serenas do Pacífico
provavelmente doidos
de esperança.

 

III

São assim as noites e as luzes
onde o calor dos corpos se mistura num rumor de auroras por inventar.
São estes os destinos
as árvores e as tardes
ingénuas e maravilhosas como a paisagem
que se despe perante os meus olhos descrentes:
o sorriso dos amigos e o abraço do poeta
a desenharem novos rios
de margens acesas num poente de ternuras.
Seguimos em frente dizem-me os amigos loucos
imensos e claros numa rua de Manágua. E nós
os bêbados
tomaremos o poder.

Manágua - Havana - Lisboa, 1984

In Margem para Dúvidas | Estante Editora | 1998

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