Outras paisagens

© Paulo Hernâni

...que a revolução consome muitos mais cigarros
do que aqueles que produz

Alexandre O'Neill

Regresso

Os elefantes
escolhem sempre o lugar da morte
disse o pescador antigo
de olhos postos no mar sem fim.
O pescador nunca viu elefantes
nem leões
nem pássaros da Amazónia
mas sabe como é.
Como nós
em mil novecentos e setenta e cinco
a forçar de vez as garras
do desespero.

Ílhavo, Setembro de 1985

 

Praia Grande

Os dedos a medo
a luz esquecida
o riso de espuma
as mãos que se dão
os olhos fechados
e o mar não se ouvia

Os dedos no corpo
os olhos em volta
a música em fundo
o tempo parado
a luz do sorriso
as mãos agarradas

Os dentes no corpo
desejos à solta
o sono adiado
as mãos em revolta
os dedos cravados
a espuma do mar

Os corpos à toa
o tempo apagado
os dedos em volta
os olhos calados
as mãos abraçadas
o sono fechado

Os corpos molhados
os dedos serenos
o tempo esquecido
a luz abraçada
os olhos no mar

E eu e tu
a voar
a voar

Lisboa, Maio de 1986

 

Quase em festa

Falávamos de quase tudo
e havia andorinhas de barro
na casa da mulher
como se fosse verão e Santa Teresa do Morro despisse as sacras vestes
e aos homens se juntasse
num ritual de alegria. Falávamos
provavelmente de amigos
e desejos
e sentidos
todos os sentidos que fazem a magia de dezembro.
Falávamos sem tempo nem razão
iluminados
por tudo o que vale a pena.

Rio de Janeiro, Dezembro de 1988

 

Mandela

É bom olhar-te de novo
procurar
em tuas rugas a rota dos homens dignos.
Melhor ainda
será contar contigo
e saber
que o valor das dúvidas
varia na razão directa
da energia que delas se liberta.

Aveiro, Abril de 1990

 

Os olhos de Peter Arnett

Eu sei general Normal Schwarzkopf eu sei
que o senhor é um homem ocupado e sem
tempo a perder em conversas vagas de poetas
eu sei que todo o tempo não lhe chega

para fazer a guerra electrónica e a cores na CNN
e no Golfo de mil e uma noites por dormir
eu sei que o senhor não pode experimentar as emoções
permitidas aos mortais comuns e às crianças

as crianças nunca vão esquecer a dor cadente
no céu de Bagdad e o repórter Peter Arnett
"só conto o que os meus olhos vêem"
as bombas e os mortos e o medo

o medo sim general Schwarzkopf o medo
que os olhos de Peter Arnett também viram
nas ruas e nas casas e nos rios e nas almas
o medo via satélite para o resto do mundo

na estrada de Baçorá morreram aos milhares
sem honra nem glória são as leias da guerra
eu sei general que sento e cinquanta mil sarracenos
não contam para a estatística o que vale

é o dever e a pátria e o petróleo
que são cento e cinquenta mil infiéis sem nome
mortos por computador como nos filmes
de homens e de monstros e de homens?

Eu sei general Normal Schwarzkopf eu sei
que tudo isto não deveria ser dito melhor seria
esquecer de vez os corpos desprezados
entre a dor e os castelos de areia

destruídos pelo orgulho e pelas balas
belas são as intenções negras as derrotas
tristes como o medo estanpado nos olhos
de Peter Arnett tristes como a morte

em directo do lado de lá do mundo
coisas general Schwarzkopf que o senhor
dificilmente entenderá porque não viu
o mesmo que os soldados e as crianças

perdidas nas ruas e nas casas sem paredes
nem memória assim se faz a guerra
que os meus olhos vêem em Bagdad e no mundo
onde o tempo todo não sobra para o sonho.

Abril de 1991

In Margem para Dúvidas | Estante Editora | 1998

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    É uma cidade triste cheia de gente triste. Tão triste como o odor que se sente nas ruas, intenso e incomodativo. «Cheira a ciganos e a comunistas», explica-me Mihaela, com um sorriso igualmente triste. Como Viorel, Alexandru, Alma ou Teodor, Mihaela tomou parte activa na revolução de Dezembro e sente, agora, a desilusão própria de quem vê frustrados os seus sonhos. Uma viagem pela Roménia pós-comunista, em tempo das primeiras eleições livres. Ou quase.

    O Jornal | 1.Jun.1990

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    QI | Diário de Notícias | 1.Jun.2013

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