Um sonho para cumprir

a_teles22.jpg

A cobiça é fraca melhor dizer
A vida não presta para sonhar
(...) Sou como o morcego vejo sem ver
Sou como o sossego sei esperar

José Afonso, «Canção da Paciência»

Há pessoas assim: capazes de observar e transformar a realidade à medida das utopias e dos desejos, conhecedores profundos da natureza humana, das suas contradições e fragilidades. São estes, regra geral, os homens e as mulheres que, por pequenos gestos e atitudes imperceptíveis, conseguem criar uma harmonia quase perfeita à sua volta, mesmo nos tempos mais conturbados e perante as situações mais adversas.

Américo Teles* foi um destes homens. Habituado a respeitar a criatura humana acima de todas as coisas – à excepção da Natureza, mãe de tudo o resto – , ele conseguiu, como poucos, realizar uma obra que vale, sobretudo, pela enorme generosidade e pela incomparável dignidade que foram características fundamentais de toda a sua vida. Quem o conheceu sabe que não existe nestas palavras ponta de exagero ou qualquer benevolência causada pela proximidade existente entre nós, mas apenas um retrato, necessariamente incompleto de alguém cuja vida foi o melhor dos exemplos.

É-me particularmente difícil recordar sem emoção a sua figura de patriarca, elo essencial de uma nem sempre fácil unidade familiar, para quem o diálogo foi sempre preferível à confrontação. Com ele aprendi que a vida vale mais a pena pelo que podemos dar do que pelo que esperamos receber. A sua crença profunda nos valores humanos (hoje submersos por um consumismo individualista e atabalhoado que põe em causa todas as regras de convivência) levou-o a agir sempre de acordo com um profundo respeito pelos seus semelhantes, mesmo quando daí resultavam desilusões e desencantos – e muitas vezes isso aconteceu.

Quem, como eu, optou pelo ofício de informar, deve utilizar as palavras com rigor. E por isso me atrevo a dizer que não imagino outro alguém que não este D. Quixote, armado apenas de uma férrea vontade e de uma profunda noção do porquê da existência, que fosse capaz de alimentar, ao longo de tantos anos, um sonho como aquele a que Américo Teles entregou a sua vida e que constitui hoje um repositório único da história de Ílhavo – e quem diz Ilhavo, diz o mar, razão de ser das suas gentes. Falo, como é óbvio, do Museu Marítimo e Regional, memória colectiva da nossa terra, considerado hoje pelos especialistas como um dos mais importantes museus temáticos portugueses e europeus. O desrespeito crónico do nosso país pelas questões culturais (encaradas, ainda hoje, por muita gente com responsabilidades governativas como um pormenor supérfluo do quotidiano) fez com que a peleja de Américo Teles em prol do Museu tivesse, por vezes, os contornos de uma luta entre David e Golias. Mesmo assim, todas as dificuldades foram superadas com um sorriso benévolo e uma verdadeira paciência oriental, e não me lembro de que alguma vez tenha pensado em desistir.

ats280x400.jpgEsta perseverança, a sua enorme capacidade dialogante, o seu horror pelas injustiças e pelos atropelos à dignidade do Homem e da Natureza, o carácter intrinsecamente bom de Américo Teles foram, para mim, talvez a maior das escolas. Por motivos profissionais, tenho tido a possibilidade de contactar com pessoas dos mais diversos lugares do mundo. Gostei mais de conhecer umas do que outras e com todas elas tentei descobrir novos horizontes. Mas não consegui nunca encontrar quem, de forma tão soberanamente simples e materialmente tão desinteressada, resumisse todas as virtudes que nele encontrei.

Da última vez que conversámos, no Porto, pouco tempo antes da sua morte, a organização e o futuro do Museu de Ílhavo ocuparam (como sempre) a maior parte do nosso diálogo. Lembro-me de que foi essa a única vez que vislumbrei nele uma réstia de desânimo. Estava pronto para aceitar a morte, com a mesma naturalidade que caracterizou todos os seus actos em vida. Tranquilamente, disse-me que estava no fim. E deixou escapar uma lágrima ao falar das filhas e dos netos, como se dissesse: «Vou ter saudades». Depois, contou-me as suas aspirações imediatas para o Museu e de novo o olhar se lhe iluminou com a imensa sabedoria dos seus 95 anos, uma serenidade misturada com a inquietação de quem tem um sonho para cumprir. E, com a mesma lucidez de sempre, manifestava a sua preocupação pelos destinos da casa que foi o seu sonho maior. Fazer dessa casa um espaço vivo de cultura e não deixar que ela se transforme num simples armazém de antiguidades, é uma obrigação nossa. E é, também, a melhor homenagem que poderemos prestar-lhe.

* Fundador do Museu Marítimo de Ílhavo e último grande patriarca da Família, Américo Teles nasceu em Ílhavo a 19 de Setembro de 1893 e faleceu no Porto em 6 de Julho de 1989.

In Américo Teles – In Memoriam, livro colectivo de homenagem
Textos de Frederico de Moura, Amadeu E. Cachim, Carlos Basto, Domingos Amador, J. Evangelista Ramalheira, João do Rio Teles, João Sarabando, J. Quintino e VT
Edição do Grupo dos Amigos do Museu Marítimo e Regional de Ílhavo | 1990

Mais sugestões de leitura

  • Guerra santa contra o rockOpen or Close

    «Satanás já não esconde as suas motivações. Os textos das canções condenam abertamente o cristianismo e apresentam a adoração do demónio como alternativa. A violência, o sexo, a rebelião e as drogas não são unicamente objecto de promoção, mas também são apresentados directamente ou encenados em palco. As canções fazem a apologia do suicídio e os telediscos levam a mensagem de Satã directamente a nossas casas...» Este discurso assustador não pertence à história da Santa Inquisição, nem tão pouco foi extrajdo de qualquer ritual exorcista da Idade Média. Trata-se, apenas, da expressão mais simples encontrada pelo padre norte-americano Fletcher A. Brothers para definir aquilo que considera ser o «rock satânico-teatral» dos anos 80.

    Se7e | 9.Jun.1986

    Ler Mais
  • Vasco GonçalvesOpen or Close

    Entre 18 de Junho de 1974 e 12 de Setembro de 1975, foi o Primeiro-Ministro de Portugal, e esse foi o tempo mais gratificante da sua vida. Aos 452 dias iluminados que então viveu, mais de dez mil horas quase todas vividas de olhos abertos, juntem-se-lhe todos os outros e as noites e as madrugadas acesas que fizeram o ano e meio da Revolução. (...) Vasco, o Companheiro Vasco, foi o único ocupante do Palácio de São Bento a quem o povo concedeu o gosto de tratar pelo nome próprio. Os adversários e os inimigos vingaram-se, inventando o gonçalvismo – tentanto resumir num homem aquilo que para eles era a fonte de todos os medos, mas que mal ou bem nascia dos mais puros anseios de um povo que, pela primeira vez na história recente, tinha como chefe do Governo um homem que o escutava e, mais importante, o compreendia.

    Ler Mais
  • Um golpe de mestreOpen or Close

    Não há melhor meio de desvalorizar uma mensagem do que descredibilizar o mensageiro. E é isso, em primeiro lugar, que sobressai do triste folhetim natalício desenvolvido a partir do alegado currículo inventado do não menos alegado professor Artur Baptista da Silva.

    Jornal do Fundão | 10.Jan.2013

    Ler Mais
  • O grande poeta menorOpen or Close

    Torrencial, apaixonado, firme, exuberante, truculento, corajoso. Qualquer destes adjectivos cabe em José Carlos Ary dos Santos, mas nenhum deles chega para qualificar plenamente o homem, o poeta, o militante. Em Ary, o todo é sempre mais do que a soma das partes, e estas nunca são estanques entre si: Ary foi o poeta que foi por ser o militante que era, e não poderia ser uma pessoa diferente sem trair tudo aquilo que constituía a sua própria razão de ser.

    Diário de Notícias | 18.Jan.2014

    Ler Mais