Histórias de Resistência e Liberdade

jaf_mqp1.jpg

(...)

A necessidade de uma «senha» transmitida via rádio, sinal para a saída das tropas que haviam de derrubar a ditadura, levou a que desde o início José Afonso ficasse involuntariamente associado ao primeiro alerta da revolução. O comandante operacional do movimento insurgente defendia a utilização de Traz outro amigo também, por toda a carga simbólica do tema. Mas a opção acabou por recair sobre Venham mais cinco, poética e ritmicamente mais adequada a um movimento que se propunha transformar radicalmente o País.

Grândola, vila morena surgiu como segunda escolha, em parte devido ao impacto conseguido no espectáculo da Casa da Imprensa, a 29 de Março, mas sobretudo porque, embora tolerada pela censura oficial do regime, Venham mais cinco estava proibida pela censura interna da emissora católica – de onde, ironicamente, foi dado o sinal para a conquista da liberdade.

O jornalista Carlos Albino e o técnico de som Manuel Tomás foram os «autores materiais» do acto conspirativo a que Zeca, apesar de protagonista, foi naturalmente alheio. O jornalista do República e futuro embaixador Álvaro Guerra constituiu-se como elo de ligação entre o programa Limite e o MFA, e nessa condição contactou Albino e contou-lhe da operação em curso, pedindo-lhe a transmissão da senha. Com Venham mais cinco colocada na «lista negra» da Rádio Renascença, Grândola foi a escolha natural.

Os detalhes finais foram acertados na tarde de 24 de Abril, num encontro entre Carlos Albino e Manuel Tomás fora da emissora, na igreja de S. João de Brito, onde decidiram gravar um bloco de música e texto, como faziam normalmente, onde incluiriam a canção escolhida. O programa era transmitido em directo e dispunha de um coronel da censura destacado exclusivamente para acompanhar as emissões.

Manuel Tomás preparou então um bloco de 11 minutos, que seria lido por Leite Vasconcelos (que desconhecia o que se passava) com o seguinte alinhamento: leitura da primeira quadra de Grândola, canção, repetição da primeira quadra, dois poemas de Carlos Albino, e a fechar o Coro da Primavera. O registo magnético ficou pronto ao fim da tarde de dia 24, e passou no crivo do censor de turno.

Vinte minutos depois da meia-noite, o sinal fez-se ouvir em todos os quartéis. Para ser exacto: aos vinte minutos mais 19 segundos, decorrentes do facto de Paulo Coelho, o locutor que conduzia a emissão na total ignorância do que estava a acontecer, não ter posto o RM no ar exactamente à hora certa. Atento, Manuel Tomás deu-lhe disfarçadamente um toque, e «disparou» o som que mudou a História.

«Vivi o 25 de Abril numa espécie de deslumbramento. Fui para o Carmo, andei por aí. Estava de tal modo entusiasmado com o fenómeno político que nem me apercebi bem, ou não dei nenhuma importância a isso da ‘Grândola’.» O momento mágico da liberdade apanhou José Afonso em cheio. Mergulhou nele de corpo e alma, sem tempo sequer para pensar no quanto de tudo aquilo lhe era também devido. «Só mais tarde, com o 28 de Setembro, o 11 de Março, etc., quando recomeçaram os ataques fascistas e a ‘Grândola’ era cantada nos momentos de maior perigo ou entusiasmo, me apercebi bem de tudo o que ela significava – e, naturalmente, tive uma certa satisfação.» (ent. a José Carlos de Vasconcelos, Se7e, 22/4/1980)

Viviam-se então tempos urgentes. E a música desempenhou, aqui, um papel que não teve em mais nenhuma revolução, como o próprio Zeca reconhecerá: «Fomos talvez o país onde a música teve uma maior acção como elemento desestabilizador». Isto, que foi verdade antes de 1974, continuou a sê-lo depois: a canção popular e a acção política percorreram um longo caminho juntas, e José Afonso esteve na primeira linha, cantando e compondo e lutando.

«Faço música como quem faz um par de sapatos, isto é, tento alinhar sons e torná-los coerentes entre si, como quem faz um utensílio. E o mundo social da música não me seduz grandemente, como não me seduzem os palcos e todo esse tipo de estruturas sobre que assenta a canção. Seduzme, sim, aquilo que posso fazer em torno da música: os contactos que estabeleço, os amigos que arranjo, esta ‘irmandade’ progressista que se vai estabelecendo à medida que vamos correndo as terras, descobrindo que nessas terras vivem indivíduos que têm determinado tipo de preocupações.»

(...)

Maior Que o Pensamento - Documentário de Joaquim Vieira
Uma História de Resistência | Uma História de Liberdade - Textos de Viriato Teles
2 DVD ed. RTP | Levoir | Público 2015

Mais sugestões de leitura

  • Nós, os que voámosOpen or Close

    Éramos jovens e pensávamos. Lembro-me: a cidade ainda não existia, Ílhavo era apenas Ílhavo, heróico poema das canções do Professor Guilhermino, vila maruja dada a devaneios de aquém e de além mar, traduzidos em histórias que o tempo transformou em lendas. Lembro-me dos doidos e dos outros, dos temores e das dúvidas, dos silêncios, dos beijos tímidos. Lembro-me também que por vezes era de noite e levavam-nos os amigos ou a família, para a guerra ou para a prisão. Havia medo, apesar da inocência que exibíamos nesses tempos. Mas havia também outra gente e outra ainda, muita gente. E foi assim que se chegou ao tempo da revolução, o tempo da revelação.

    Prefácio a Marginal - Poemas breves e cantigas, de Vieira da Silva | 2002

    Ler Mais
  • O pássaro da ilhaOpen or Close

    O Zeca é um pássaro. Ele canta, encanta, inventa e reinventa, sem nunca cansar quem o ouve – e que o vê. Porque ver o Zeca é tão importante como ouvi-lo. Há quem o compare a Tom Waits, mas em palco ele faz sobretudo lembrar Jacques Brel – na entrega, no modo inteiro como interpreta as suas canções de amor e mágoa, esperança e desencanto e saudades de um futuro em que não desiste de acreditar, mesmo se o presente tantas vezes parece empenhado em desmenti-lo.

    Introdução ao espectáculo de José Medeiros no Teatro Micaelense | 2007

    Ler Mais
  • Animais nossos amigosOpen or Close

    A pacatez da vida política portuguesa foi abalada há poucos dias com um curioso debate parlamentar em torno dos escalões do IVA a aplicar às comidas de cães e gatos, bem como a certas espécies de moluscos como as ostras.
    Na origem da interessante discussão esteve uma proposta, apresentada pela parlamentar socialista Rosa Albernaz (...) no sentido de descer de 17 para 12 por cento a taxa do IVA a aplicar aos "produtos alimentares para alguns animais da classe dos vertebrados", segundo explicou a deputada.

    TSF | 19.Nov.1997

    Ler Mais
  • Minha cabeça estremeceOpen or Close

    Minha cabeça estremece com todo o esquecimento.
    Eu procuro dizer como tudo é outra coisa.
    Falo, penso.
    Sonho sobre os tremendos ossos dos pés.
    É sempre outra coisa,
    uma só coisa coberta de nomes. (...)

    Herberto Helder

    Ler Mais