b_500_400_16777215_00_images_livros_460459_348356455225842_993254790_o.jpg

Deveria ser-me fácil falar de Alípio, meu amigo, irmão e mestre, e mais ainda. Para um homem de palavras não é difícil entender os homens de palavra. Alípio é as duas coisas, e mais ainda, e é por isso que não cabe nos lugares comuns de palavras banais.

Alípio Cristiano de Freitas era um homem vulgar que se entregou ao destino invulgar de proclamar a fé em Deus como inseparável da fé nos homens. Que são deuses, também, assim o queiram – mas poucos se atrevem. Alípio atreveu-se. Viveu, sentiu, sofreu e sonhou em grau superlativo, esteve nos lugares onde era preciso sempre que era preciso, e nos outros também. Não consta que se tenha arrependido.

Falar de um ser assim é, pois, mais do que um risco, quase uma inutilidade. Na verdade, o melhor de tudo é ouvi-lo, percorrer com ele as rotas da memória e os atalhos da história, descobrir que a coragem é, em essência, apenas um modo superior de lutar contra o medo.

Querer e fazer. Mesmo em excesso ou com defeito, a acção é sempre preferível à inércia alimentada pelo medo que só produz medo. E foi assim que o pastor de almas se tornou pastor de gente, homens e mulheres à beira da desesperança a quem Alípio devolveu razões para viver e por que viver.

Quarenta anos atrás, José Afonso resumiu a história de Alípio em três palavras que dizem tudo, mas ainda assim é pouco. Homem de grande firmeza – cantou ele, e foi por estes versos que a maior parte de nós o descobriu e o conheceu antes ainda de conhecer. Talvez por isso, não consigo lembrar-me com precisão do dia em que pela primeira vez nos encontrámos. Sei, com toda a certeza, que foi com Zeca, ou devido a ele – ou ambas as coisas, que é o mais provável. Mas isso, mesmo se maior, é apenas um pormenor.

Naqueles tempos, havia, como hoje, sonhos e fantasmas, ilusões e incertezas, medos e solidões. Havia, porém, um pouco mais de esperança, porque o mundo tinha então (ou parecia ter) vários lados e diferentes modos de ser e de viver. Por momentos, alguns de nós chegámos mesmo a acreditar numa outra realidade, humanamente feliz, à nossa espera num sítio por inventar. Percebemos depois que, tal como a linha do horizonte, a Utopia se afasta a cada passo e, como resumiu Eduardo Galeano, só serve para não deixarmos de caminhar. Apenas isso. E isso é tanto, isso é tudo.

À querença cristã de vencer a morte, Alípio contrapôs a humana vontade de vencer a vida. Trocou o conforto da sacristia pela rudeza da favela, porque estando perto dos homens ficaria mais próximo de Deus. Com os pobres e pelos pobres, o padre Alípio deixou de ser quem era, porque só assim poderia continuar a ser o que é. E foi: guerrilheiro, agitador, clandestino, assaltante de bancos, preso político, jornalista – um longo e digno percurso de que nunca desistiu, coerente e firme como só gente grande consegue ser.

A existência de Alípio refuta as teses de Adorno e prova que a poesia é possível, mesmo depois de Auschwitz. A poesia existe e está sempre onde há um ser de coração grande, pronto a dar a vida em nome da vida. Um coração flor-de- lótus que se ergue desde o fundo dos pântanos para iluminar o mundo.

Diz a história que, na Grécia Antiga, Diógenes de Sinope perambulava pelas ruas de Corinto munido de uma lanterna, em busca de um homem. Em vão, ao que parece, pois que apesar de ter tido vida longa não há registo de alguma vez se ter cruzado com algum. Se fosse hoje, Diógenes não precisaria de lanterna: bastava-lhe encontrar Alípio.

Alípio de Freitas, o nosso querido Alípio, mestre, amigo e companheiro, é mais do que uma razão para ter esperança. Ele é um motivo de orgulho para a espécie humana, demonstração viva de que vale a pena lutar e acreditar e querer e fazer. E se o mundo de hoje é, apesar de tudo, mais justo e mais livre do que o mundo de há 50 anos, isso deve-se essencialmente a pessoas como Alípio, capazes de sonhar com a força e a vontade necessárias para transformá-lo.

Dir-se- á que já não se fazem homens desta fibra, capazes de amar até à dilaceração, como cantava Brel, sonhadores de sonhos impossíveis e outras revoluções. Mas com Alípio aprendemos que não tem de ser assim, que há sempre uma madrugada clara no fim de cada noite escura.

O Alípio fez, tem feito, e estou seguro de que vai continuar a fazer de nós também melhores pessoas. O que decerto não chega para explicar o mistério da fé, mas justifica, amplia e dá sentido ao milagre da vida.

Texto incluído em Palavras de Amigos para Alípio de Freitas | Edições Pangeia, 2017
Livro colectivo de homenagem a Alípio de Freitas por ocasião do seu 88º aniversário. Colaborações de mais de 100 autores de Portugal, Galiza e Brasil

Mais sugestões de leitura

  • Falando assédioOpen or Close

    Quando não têm uma guerrazinha com que se entreter, os americanos são capazes de tudo. Até de transformar em notícia as possíveis aventuras extraconjugais de Bill Clinton. Tudo começou com uma vulgar acusação de assédio sexual - essa brilhante invenção norte-americana deste fim de milénio. Pessoalmente, devo dizer não tenho nada contra o assédio sexual - seja no local de trabalho, na rua ou mesmo em casa. Acredito até que, sem assédio, a humanidade acabaria por se extinguir, por manifesta falta de assunto.

    TSF | 28.Jan.1998

    Ler Mais
  • José Mário BrancoOpen or Close

    Poucos dias passados sobre o 25 de Abril, ele foi o primeiro a definir quais deviam ser os cânones da canção de intervenção, numa reunião de cantores que integraram o Colectivo de Acção Cultural, nascido no alvorar da revolução, e que eram quase todos os que vinham da canção de protesto que marcou os últimos anos da ditadura. O exemplo do que deveria ser feito, agora que o fascismo estava derrubado e a liberdade fora alcançada, apresentou-o José Mário Branco nesse dia. Chamava-se Alerta e marcou a estreia da canção-de-combate após a revolução.

    Ler Mais
  • Do lado esquerdo da AméricaOpen or Close


    Nascido em Nova York a 3 de Maio de 1919, Pete Seeger é desde há meio século muito mais do que um mito da história da “folk song”. Militante da música como forma de alertar as consciências adormecidas, Seeger permanece como um símbolo de várias gerações de “insatisfeitos”, acreditando firmemente que vale a pena resistir. Norte-americano por nascimento, ele é, no entanto, uma das vozes que mais lucidamente se ergueram contra a massificação cultural imposta pelo poder político e económico dos Estados Unidos.

    Ler Mais
  • Onde é que está o 25 de Abril?Open or Close

    Desde já confesso: sou culpado. Culpado de ter vivido intensamente o 25 de Abril e os dias levantados que se seguiram. Estava em Ílhavo, quando tudo começou, mas ninguém é perfeito. Era jovem e pensava. Éramos imortais, e não queríamos perder tempo. Queríamos o mundo, e tínhamos o mundo. Em ano e meio, fizemos de um país tristonho uma pátria onde valia a pena sonhar. E sonhámos, e vivemos horas que ninguém nos tira. Depois, a vida real impôs-se e mostrou-nos que há um preço para tudo, até para os sonhos. Pagámos por isso, e muitos de nós continuam a pagar. E, afinal, qual é o preço da nossa culpa? Quisemos ser felizes. E isso é crime?

    Ler Mais