As sandálias do pecador

malberto.jpg

Vamos por partes. Isto não é uma biografia, nem um ensaio, nem um manifesto, nem um romance, nem um poema. E no entanto também é biografia e ensaio e manifesto e romance e poema. Não é um livro de memórias, mas é um livro feito de muitas memórias. São fragmentos de uma vida cheia de muitas vidas, em que o protagonista é um cidadão incomum, habitante de Lisboa e do mundo, militante do prazer, generoso, heterossexual praticante, antifascista visceral, rabulista imparável, bebedor consistente, anarco-surrealista e inimigo da padralhada. Senhoras e senhores, eis Mário Alberto, cenógrafo e pintor, sobrevivente do Parque Mayer, evidente de Fátima e tudo.

O que a seguir se oferece tem o mesmo sentido da partilha bíblica do pão e do vinho. Tinto corrente ou néctar do bom, de preferência com o conduto de uma morcela da Beira ou de um chouriço de Barrancos, que o Mário não se faz rogado. E movimenta-se com o mesmo à-vontade nos salões mais elegantes ou nas tascas mais ordinárias. Sempre com os amigos por perto, como se impõe. Os amigos "que são tristes com cinco dedos de cada lado", como diz Herberto. Os amigos que o Mário torna alegres e que cultiva como rosas delicadas, quer sejam poetas famosos ou bêbados anónimos, mulheres distintas ou putas de rua, actores de seis assoalhadas ou figurantes sem abrigo. À nossa!

Do baú do Mário Alberto saíram os recortes, as fotografias, os apontamentos, as recordações que nos coube reunir e organizar. Faltam, neste livro, referências a muitos momentos fulcrais da sua história, situações avulsas que ajudaram a consolidar a sua lenda? Pois faltam. Porque reunir todos os recortes de que se faz a vida inteira do Mário Alberto daria uma obra de pedir meças à Enciclopédia Britânica. E porque isto é, já ficou dito, um livro de fragmentos, pedaços de um percurso longo onde se misturam os acasos e as visões, os sentimentos e as reflexões, os amores e os ódios, as alegrias e as mágoas. É muito, mas sempre pouco, quando se trata de alguém com tanto para contar.

O Mário Alberto andou pela Turquia a dançar os Pauliteiros de Miranda, foi bolseiro de Beatriz Costa em Paris, praticou reiteradamente a coreografia do amor um pouco por toda a parte. Sexoralista afamado, tornou-se uma referência nacional e internacional desta arte nobre. Activista empenhado de todas as causas a que se entrega, o Mário Alberto é firme nas suas convicções – artísticas, políticas, sentimentais – e não vira a cara à luta. Gosta da vida, e sente-se particularmente bem a chatear o clero, a nobreza e até o povo, que bem precisa de quem o obrigue a olhar com olhos de rir para a cinzentona classe mandante.

Alguns documentos aqui reunidos perdem em qualidade de reprodução o que ganham em autenticidade. Trata-se de papéis de idades variáveis, em diferentes estados de conservação, mas todos eles testemunhos de muitas artes e afectos. E isso chega para que mereçam estar aqui. Outros, muitos, perderam-se irremediavelmente nas andanças do Mário Alberto pelos sítios onde foi deixando a sua marca. Ficou este lote de salvados, à semelhança dos seus esboços em traço largo de iconoclasta.

Mas os textos, entrevistas, manuscritos e originais que de seguida se apresentam são também suficientes para dar um retrato minimamente fiel da sua vida, do seu trabalho, das suas paixões e das suas intolerâncias. Que o Mário Alberto não é um homem fácil. É o melhor companheiro do mundo, mas se lhe pisam os calos fica com uma dose de mau feitio só comparável à grandeza do seu carácter e da sua frontalidade. Benditos são os amigos, mas ai dos seus inimigos: praga rogada pelo Mário, alentejano de Angola, é macumba certeira – e comprovada, que o diga George W.

Fiquem-se, pois, com estas vidas do Mário Alberto, modesto contributo deste apóstolo pagão para que se encham de alegria as nossas tristes realidades. Vejam, leiam, sorriam, acreditem ou não, mas considerem-se abençoados. Porque Deus é grande mas também é gordo, a Vossa Senhora nunca aterrou na Portela, o FMI é uma cambada e Fátima não existe, amén.

Oremos.

In O IVAngelho II Mário Alberto | Ed. Sojorama – Lisboa, 2002

Livro de histórias e memórias de Mário Alberto | Organização de Viriato Teles, António Macêdo e Avelino Carmo | Produção de João Reis e Nuno Figueiredo.

Textos e imagens de António Branquinho Pequeno, António Macêdo, António Xavier, Baptista-Bastos, Carlos Porto, Eduardo Gageiro, Fernando Assis Pacheco, Fernando Paulouro Neves, Francisco Nicholson, Gonsalves Preto, João Paulo Guerra, Joaquim Benite, Joaquim Letria, José Jorge Letria, José Luís Madeira, Luís Severo, Luiz Francisco Rebello, Luiz Pacheco, Manuel de Lima, Maria do Céu Guerra, Maria João Duarte, Mário Alberto, Mário Castrim, Mário Cesariny, Mário Sério, Mário Viegas, Miguel Casanova, Pedro Loureiro, Urbano Tavares Rodrigues, Vasco de Castro, Viriato Teles e Vítor Ribeiro.

Mais sugestões de leitura

  • Algumas opiniõesOpen or Close

    Excertos de opiniões publicadas na Imprensa acerca de Margem para Dúvidas.

    Ler Mais
  • Ler jornais é saber demaisOpen or Close

    Cada vez me custa mais a entender aquela teimosa mania que o professor Cavaco tinha de não ler jornais. É verdade que os jornais, por regra, estão cada vez mais pardos e menos interessantes. E é um facto que certos jornalistas são tão vergonhosamente ignaros e tão desprovidos de sentido ético, que até já pensei requerer a nova carteira profissional na categoria de «artista de variedades».
    Mas ainda assim, eu, que sou teimoso, continuo a ler jornais. Será um vício, talvez, mas o que hei-de fazer? Ontem mesmo, por exemplo, fiquei a saber pelo Diário de Notícias que a polícia não serve só para reprimir, de acordo com o terá dito o ministro Jorge Coelho. O que significa que, lá no fundo, a polícia deve ter alguma utilidade, ainda que ninguém, nem sequer o ministro, saiba dizer em rigor qual é.

    TSF | 21.Jan.1998

    Ler Mais
  • Três olhares sobre ManáguaOpen or Close

    As noites de Manágua são mais claras
    luzes imensas de estrelas pequeninas
    pousadas nas árvores e nos rostos das mulheres.

    Ler Mais
  • Um poeta na varanda dos deusesOpen or Close

    «Lisboa é como a vida: nós queixamo-nos, mas é muito bom andar por cá.» Dono de um aguçado sentido crítico e de um humor por vezes implacável, Alberto Pimenta reflecte em toda a sua obra uma grande atenção aos problemas do mundo actual, expressa com um rigor de linguagem que faz dele um dos nomes mais importantes, mas também mais incómodos, da poesia portuguesa contemporânea.
    «A cultura é o desporto da classe média», afirmou uma vez. Ainda hoje, há quem não lhe perdoe esta irreverência e a frontalidade dos gestos e das atitudes.

    Mini International | Março 2007

    Ler Mais