Saramago, autor do século XVIII

carageas400.jpg

José Saramago, um romancista do século XVIII? Ninguém se lembraria de tal coisa, mas foi assim mesmo que ele foi inicialmente apresentado, em Bucareste, poucos meses antes do lançamento, pela Editora Univers, da tradução romena de Memorial do Convento.

Corria o ano de 1988 e os censores estavam, como o regime de Ceausescu, para lavar e durar. Ou, pelo menos, assim parecia. Dado o paralelismo que, pelo menos em teoria, poderia estabelecer-se entre o processo de construção do Convento de Mafra e a edificação, em Bucareste, da «Casa da República» – mandada erguer pelo ditador em nome da nunca alcançada «vitória do socialismo» –, a tradutora, Mioara Caragea, e o marido, Dan Caragea, que é também o autor do prefácio, tiveram que recorrer a diversos subterfúgios para evitar a eventual proibição do livro de Saramago.

«No catálogo de apresentação dos livros a editar pela Univers nesse ano de 88 identificámos Saramago como um autor do século XVIII e anunciámos o livro na colecção ‘Romance Histórico’, porque essa era a garantia máxima que podíamos ter de que ele não iria ser lido pela censura», conta Dan Caragea. «Nós sabíamos que, em princípio, a censura não se preocupava muito com autores antigos e, muito menos, com romances históricos. Mas porque, nessa altura, Ceausescu tinha ordenado a destruição de diversas igrejas e mosteiros, os censores achavam 'pouco conveniente' falar-se de conventos. E o título teve que ser alterado, na versão romena, passando a ser 'Memorialul de la Mafra' ('Memorial de Mafra'). Por outro lado, nessa apresentação que fizemos, acentuámos, propositadamente, o carácter "antìclerical" do livro. Era uma coisa que agradava aos censores.»

Paixão à primeira leitura

O que já não agradou foi o prefácio de Dan Caragea, esse sim, submetido à prévia (e atenta) leitura dos esbirros do regime, e vítima de longos cortes. «Eu falava da construção do Aqueduto das Águas Livres, do convento, da megalomania do rei português. E eles entendiam tudo isso como referências à canalização do rio de Bucareste, sacrificado pela construção da ‘Casa da República’, e às excentricidades de Ceausescu. Verdade se diga», ironiza, «que era disso mesmo que eu queria falar...»

Com boa parte do prefácio cortada pela censura, Dan Caragea decidiu arriscar tudo. E acabou por fazer algo de muito semelhante ao que o revisor Raimundo faz na História do Cerco de Lisboa. com cumplicidade do então responsável da Univers, Romul Munteanu (professor, tal como Dan, da Universidade de Bucareste, onde detém a cátedra de Literatura Universal), introduziu, nas provas finais, algumas das partes cortadas.

«O meu prefácio tinha sido publicado já na revista literária "Século XX"», diz. «E foi considerado perigoso, porque chamava a atenção para a história do povo português e, implicitamente, estabelecia um paralelo com a do povo romeno».

 Dan e Mioara Caragea descobriram o Memorial do Convento mais ou menos por acaso, durante umas férias. Estudiosos da cultura portuguesa (ele é professor de Português, esteve em Lisboa em 1977 e viveu durante algum tempo em Luanda, em 1981; ela dedica-se desde há anos ao estudo e à tradução de autores portugueses, tendo já vertido para romeno livros de Agustina e Eça de Queirós), «apaixonaram-se» de imediato pelo livro de Saramago.

«Foi um caso de paixão à primeira leitura», lembra Mioara Caragea. «O Dan mostrou-me o livro, comecei a lê-lo e, de repente, dei comigo lavada em lágrimas. O romance de Baltasar e Blimunda, as histórias do padre Bartolomeu de Gusmão, o voo da passarola e, principalmente, aquela imagem final do auto-de-fé comoveram-me imenso».

«Os Maias» sem incesto

Editar o Memorial não foi fácil. Durante dois anos, Mioara e Dan tentaram convencer Saramago a deixar-se traduzir nas precárias condições impostas pelo regime. Quando, por fim, o escritor português acedeu, Dan e Mioara, empenharam-se no combate mais difícil: publicar o livro, sem interferência da censura. Eles sabiam, por experiências anteriores, as dificuldades que os esperavam.

«Quando traduzi A Sibila», conta Mioara, «a censura foi ao ponto de cortar a expressão "cu de Judas", argumentando que poderia ser entendida como uma manifestação de anti-semitismo...» E «na tradução de Os Maias, a censura eliminou as referências ao incesto, o que retirou todo o sentido ao livro». O Mandarim, no entanto, nem sequer foi autorizado a sair: na época ainda havia o conflito sino-soviético, et pour cause...

Por estas e por outras, Dan e Mioara recorreram, de início, à localização de Saramago no século XVIII e anunciaram o Memorial na colecção de Romance Histórico. O «erro» só seria corrigido já em cima da data da edição: Saramago «regressou» ao seu tempo e o livro saiu sob a égide da colecção «Romanul Seculul XX» (Romances do Século XX).

Com a publicidade obtida pela publicação prévia de alguns capítulos, na revista «Século XX», a edição de 30 mil exemplares do Memorial esgotou-se num dia. Tempos depois, segundo Dan Caragea, «houve elementos da Securitate que perceberam o que tinha acontecido e o Memorial entrou no rol dos livros subversivos. Só que já era tarde: nas livrarias não sobrou nem um exemplar.»

Jornal de Letras | 12.Jun.1990

Mais sugestões de leitura

  • A razão de ser de um livroOpen or Close

    Ao longo destas páginas reuni apontamentos, entrevistas e histórias, umas mais pessoais do que outras, procurando, através da junção desses episódios, retratar com a fidelidade possível Ernesto Che Guevara, o homem, e a realidade que criou, de modo a entender os contornos da sua utopia e da forma como lutou por ela, até à morte. (...) Para traçar o perfil de Guevara para além do mito consultei testemunhos antigos, confrontei-os com outros mais recentes, auxiliei-me de fontes oficiais e não oficiais, em Cuba e fora dela. (...) Que os leitores possam sentir-se minimamente compensados e talvez, perdoe-se-me a veleidade, um pouco mais informados com esta leitura, é quanto me basta. O resto será determinado, como sempre, pelas circunstâncias da História. E essas, dizem-nos os factos, passam sempre pela vontade de cada homem que cria a vontade de todos os homens. Sobretudo aqueles que acreditam no valor da tal dignidade que foi sempre tão cara ao comandante guerrilheiro Ernesto Guevara de la Serna, para sempre e por todos chamado O Che.

    Ler Mais
  • O homem e as cidadesOpen or Close

    Era uma vez um homem que gostava de cidades. A biografia de Manuel Graça Dias, arquitecto nascido em Lisboa no ano de 1953, podia começar assim. E não apenas pelo livro que acabou de publicar, justamente intitulado O homem que gostava de cidades, onde reúne uma mão cheia de crónicas que fez para a TSF durante muitas dezenas de semanas.

    Status (Semanário Económico) | Out/Nov 2001

    Ler Mais
  • A última vontadeOpen or Close

    Já passa da uma da manhã. A minha mulher continua sem aparecer e a gata Genoveva não pára de me lamber os calcanhares como se fossem gelado de limão. Dantes, as coisas e as pessoas eram muito mais simples, mas a tecnologia transformou tudo. Até as gatas. Escureço aos poucos na calma idílica dos subúrbios enquanto Ian Dury, preso nas ondas da telefonia, continua a sussurrar o seu convite: «Walk up and make love to me.» Não entendi ainda se será uma alusão discreta à minha mulher ou à gata mas, bem vistas as coisas, vai dar ao mesmo.

    Se7e | 15.Jun.1983

    Ler Mais
  • Uma voz do mundoOpen or Close

    «A importância de um país avalia-se pela sua capacidade de tirar partido e proveito dos seus valores, nomeadamente os culturais. (...) A única autêntica maneira de um português se realizar é considerar-se de alguma forma estrangeiro, é distanciar-se da Nação, é agarrar-se com todas as suas forças a conceitos superiores de universalidade. Carlos do Carmo é uma voz do mundo – e por isso salvou-se. (...) E, com ele, salvou-se também uma parte importante da música portuguesa – o fado – que passou a ser do mundo!» Testemunho de António Victorino d'Almeida

    Ler Mais