O cherne da questão

Em água silenciosa de passado
Circula o cherne: traído
Peixe recalcado...

Alexandre O'Neill

O leitor talvez não se tenha dado conta, mas as eleições legislativas deste ano sem graça de 2002 vão mesmo ficar na história. Não, obviamente, pela vitória do PSD, que, na circunstância, tem mais o aspecto de um presente envenenado. Nem pela derrota do PS, mais do que esperada e obviamente merecida. Ou sequer pela entrada em queda livre do PCP, previsível e inevitável perante o crescente autismo da direcção comunista.

Também não é pela surpreendente recuperação de um CDS/PP, para quem esta parecia ser uma ida às urnas no sentido mais concreto e literal do termo, que estas eleições serão lembradas no futuro. Nem sequer pelo crescimento do Bloco de Esquerda, resultado sobretudo da ineficácia comprovada dos representantes da esquerda tradicional. Não. Na história, na história a sério, garanto que fica o Cherne. Sigamo-lo, como propunha O’Neill.

Quando a mulher do ora primeiro-ministro tomou à letra o apelo do poeta e lançou a única frase que teve eco na campanha (à parte as considerações anatómicas em volta da "mão de Ferro" do PS e do "braço direito" do CDS) não faltou quem achasse que meter o Cherne ao barulho era coisa típica da peixeirada em que se converteram não apenas as campanhas eleitorais mas a generalidade dos episódios que dão cor à vida política portuguesa. Aliás, só com muito boa vontade é que alguém pode ver no líder do PSD algo mais do que uma simples boga, mas já se sabe: o amor é cego.

No entanto, uma análise mais rigorosa revela que a comparação com a pisciforme criatura não é tão descabida como parece. Afinal, ao longo dos seis anos em que foi primeiro-ministro, o engenheiro Guterres mais não fez do que demonstrar não ser carne nem ser peixe – e por isso o PS perdeu as eleições. E porque lhe disseram que vem aí o tempo das vacas magras, o povo, ciente de que a carne é fraca, escolheu o peixe – e o Cherne ganhou as eleições.

O Cherne, e não necessariamente o PSD, que é por vocação um partido de trutas, mas em cujas águas os tubarões se sentem particularmente bem. Aliás, entre a nossa rica fauna subaquática, foram muitos os que sobreviveram à pesca de arrasto dos votos. A começar pelas lapas do PP, que se agarraram ao casco do barco governamental e prometem não o largar tão cedo. Ou pelos carapaus-de-corrida luzidios e incolores que nadam em volta do Oceanário a ver se lhes calha alguma coisa. Mas também as enguias, os moluscos e as anémonas se saíram bem, como de costume. O melhor exemplo é dado pelo elegante recém empossado secretário de Estado de Isaltino Morais: sócio do PS até 18 de Janeiro, mal o mar se agitou, o rapaz tratou de ir pregar para a freguesia do clube do lado, e dois meses e meio depois ei-lo que está pronto para seguir o Cherne. Se isto não é verdadeiro amor à pátria, não sei o que será...

O futuro abre-se, pois, ao Cherne, pessoal! Ou deverei dizer peixoal? Em terra, as gaivotas anunciam mau tempo, mas que importa isso para quem vive nas águas profundas? Os camelos, os cães e as cavalgaduras em geral (que é o que nós somos, não sei se já perceberam) que se cuidem. Afinal, Portugal foi durante séculos um país de marinheiros, o governo do engenheiro Guterres fartou-se de meter água, o partido do doutor Carvalhas está-se a afogar lentamente, e o povo em geral não se dá mal em águas turvas.

Mas na história, repito, ficará o Cherne. Porque ele é a prova maior de que Portugal atingiu a plenitude da maturidade democrática. Com o Cherne, os portugueses demonstram ao mundo que não é necessário nenhum talento especial para ser primeiro-ministro de Portugal. Basta ser Cherne. Um passo mais, e acredito que atingiremos o patamar superior da democracia representativa.

É apanágio dos países mais evoluídos, como os Estados Unidos ou a Rússia, que qualquer tolo possa chegar a presidente. Os casos de George W. Bush (que está por aí a mandar mais uns tirinhos e não me deixa mentir) e de Boris Ieltsin (que já não está, mas apenas porque se irritou a meio duma bebedeira e foi-se embora) são exemplos paradigmáticos. Esta característica das grande democracias é reveladora de um esforço sincero para a integração dos menos dotados, que só abona a favor da civilização ocidental.

Infelizmente, em Portugal ainda estamos longe de um tal grau de grandeza e perfeição, mas lá chegaremos. Tivemos Américo Tomás, é verdade, e tivemos também o Almirante Bardamerda, especialista em serenar o povo, mas foram casos isolados e sem continuidade. Agora, há de novo uma esperança. Agora, temos o Cherne, Portugal não pode parar, e a vitória é difícil mas é deles. Já podemos dormir em paz, a democracia está em boas mãos.

Sigamos, pois, o Cherne. E não se pense que este é um tempo de feição apenas para o peixe graúdo. A galeota já quase não existe e os jaquinzinhos estão proibidos pela União Europeia (resta-nos o leitão da Bairrada, vá lá), mas o que é isso comparado com o drama dos tribunais ingleses, recentemente chamados a decidir se as classes trabalhadoras ainda existem? Por cá, apesar de tudo, as águas continuam calmas, agora que o Cherne nos livrou da III Guerra Mundial, mas ainda assim o mar está cheio de robalos disfarçados de salmões.

Por mim, não restam dúvidas: a partir de agora, vou evitar o pecado da carne e passo a alimentar-me de forma patriótica e condizente com a democracia avançada que estamos a construir. Afinal, quem foi que disse que comer cherne é dar de beber a dois milhões de portugueses?

Alface Voadora | Abril 2002

Mais sugestões de leitura

  • O senhor Lopes e o cantadorOpen or Close

    Um concerto de Fausto esteve agendado para a noite de 24 de Abril de 2004, no Terreiro do Paço, mas acabou desmarcado por «indicações superiores». O presidente da Câmara de Lisboa, que organizou o espectáculo, era Pedro Santana Lopes, e a decisão de desconvidar o cantor ocorreu na altura em foi referida pelos círculos do poder a necessidade de «retirar qualquer conotação ideológica ao 25 de Abril». Como se vê.

    Focus | 12.Mai.2004

    Ler Mais
  • Humana forma de vidaOpen or Close

    «Eu não passei pela vida, a vida é que passou por mim», dizia. E assim, entre a sua estreia (aos 19 anos, no Retiro da Severa), e a sua última actuação pública, em 1994, Amália nunca deixou de se surpreender com o que a vida lhe deu. (...) Amália sobreviveu às transformações sociais e políticas do seu país, e quando deixou o mundo dos vivos, a 6 de Outubro de 1999, era já uma figura consensual. Pelos quatro cantos do mundo, por onde andou, a sua voz continua a fascinar, vencendo a morte. Porque é humana, como a sua história.

    Ler Mais
  • Desabafos de um repórter que ainda acredita na paixãoOpen or Close

    Quando, em 1983, os jornalistas se reuniram pela primeira vez em congresso para debater a «liberdade de expressão, expressão da liberdade», o meu amigo e companheiro Fernando Alves provocou algum escândalo entre a classe ao anunciar que «os jornalistas portugueses estão a atingir o princípio de Peter da dignidade».

     III Congresso dos Jornalistas Portugueses | 1998

    Ler Mais
  • A poesia na RevoluçãoOpen or Close

    [A Utopia segundo Che Guevara] é um livro admirável, escrito num português admirável. O que não é nada despiciendo num país onde muitos escritores e outro tanto de jornalistas tropeçam no pronome, vacilam na preposição e estatelam-se no advérbio. Viriato Teles legitima a atitude de reactivar a reflexão sobre Guevara, respondendo à relação radicalidade/fascínio com argumentos que me parecem extremamente inovadores. (...) Um livro de reportagens, escrito por um dos grandes repórteres portugueses e, certamente, o melhor da geração a que ele pertence – tomando o conceito de geração com todas as precauções devidas. Viriato Teles faz parte do reduzido grupo que tenta reabilitar a grande tradição da Imprensa portuguesa: aquela que nunca enjeitou a «participação» afectiva sem desleixar a qualidade da prosa e sem ignorar a ética do ofício.

    Ler Mais