Um homem de carácter

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O mais importante humorista português contemporâneo fez recentemente 85 anos [sábado, 7 de Julho]. Mas, com excepção da meia dúzia de amigos e admiradores que estiveram presentes numa pequena homenagem organizada em Lisboa pelo Museu da República e Resistência, quase ninguém se deu conta da efeméride.

O homem de que falo chama-se José Vilhena e produziu, nos vinte anos que antecederam a Revolução de Abril, algumas das mais notáveis peças paraliterárias de resistência à ditadura. Depois de 74, o seu humor mordaz continuou a incomodar os sucessivos poderes – tanto o poder revolucionário como o institucional que se lhe seguiria – mas isso não o impediu de manter, durante os trinta anos posteriores, uma actividade regular sem paralelo como autor e editor.

Com a Gaiola Aberta, primeiro, e depois com O Fala Barato, O Cavaco, ou O Moralista, Vilhena esteve sempre na primeira linha do humor, disparando sem dó nem piedade contra políticos e militares, padres e bispos, reis e princesas e demais figuras públicas e privadas que se pusessem a jeito.
As publicações periódicas foram o seu meio privilegiado de comunicação, no regime democrático. Antes disso, eram os livros, pela simples razão de que, sobre eles, não existia a obrigatoriedade de submissão à censura prévia. Em contrapartida havia sempre o risco da apreensão posterior, coisa que Vilhena conheceu bem: com cerca de 40 títulos capturados pelos esbirros do regime foi, seguramente, o autor mais perseguido pelo lusofascismo.

Ao longo dos anos, foram muitos e de vários quadrantes os que tentaram apoucar o seu trabalho, sob os mais diversos argumentos: que se trata de um autor obsceno, praticante de um humor estereotipado e sexista, desrespeitador de tudo e de todos. E nem a tese de doutoramento que Rui Zink produziu a seu respeito foi suficiente para desfazer estes (e outros) equívocos gerados em torno da sua obra singular.

A verdade, porém, é que na história do humor português do século XX não há quem se lhe compare – à excepção, talvez, de Raphael Bordalo Pinheiro, nos anos da primeira República. Iconoclasta militante e impenitente, Vilhena só na aparência se rendeu à facilidade que o seu traço por vezes sugeria. Pelo contrário, os seus escritos revelavam não raras vezes um nível cultural muito mais elevado do que a brejeirice de alguns temas faria supor. A sua História Universal da Pulhice Humana, por exemplo, não fica a dever nada, em erudição, aos manuais clássicos das escolas – com a vantagem de ter muito mais graça.

No entanto, para a maioria dos académicos, frequentemente mais dados à deformação do que à (in)formação, José Vilhena era – e é, ainda – uma companhia pouco recomendável. Na sessão do Museu da República, o poeta Alberto Pimenta contou o caso de um conhecido homem da cultura que, aquando da publicação do sublime Discurso Sobre o Filho-da-Puta, o alertou para os riscos de «vilhenização» da sua obra. Melhor seria, digo agora eu, que o intelectual em causa se preocupasse mais com a vilanização do país, mas isso são seguramente contas de outro rosário.

Aos 85 anos, afectado por uma doença impiedosa e particularmente injusta, José Vilhena já não escreve nem desenha e vive alheado do mundo cujas misérias e baixezas tão mordazmente retratou. Mesmo assim, continua a incomodar – e ainda bem. Só os homens de carácter conseguem fazê-lo. E Vilhena, José Vilhena, é seguramente um deles.

Jornal do Fundão | 19.Julho.2012

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