Zeca em livro ao vivo

© António Fazendeiro

O AUTOR. O autor, Viriato Teles, é jornalista.
Digo isto à cabeça porque uma notícia da Lusa, publicada nos jornais de hoje, chamou-lhe ex-jornalista. Isto é: a notícia roubou-lhe a carteira.
A carteira profissional do Viriato Teles está em vigor e tem o número 607.
Este número, para além de atestar a condição de jornalista, atesta a qualidade de velho jornalista.
Aliás é daí que nos conhecemos: do velho jornalismo. E como nos conhecemos de velha data, estou em condições de o apresentar.
Eis jornalista. Eis o jornalista Viriato Teles.
Escrevemos por vezes para os mesmos papéis. Temos muitos amigos comuns. E espero bem que também alguns inimigos.
E em todos os escritos do Viriato Teles, avulso para os jornais e revistas, ou reunidos em livros, destaca-se para além de um estilo muito vivo, por vezes transgressor, uma grande coerência: não há uma cedência à mediocridade.
O Viriato Teles escreveu sobre o Che, sobre o José Afonso, o Carlos Paredes, o Mário Alberto.
Conversou com Alberto Pimenta, Alice Vieira, Baptista-Bastos, Edmundo Pedro, Fausto Bordalo Dias… E também com Amália, Atahualpa Yupanqui, Chico Buarque, Juliette Gréco, Léo Ferré, Marcel Marceau, Mário Viegas, Pete Seeger, eu sei lá quem mais.
Ou seja: O Viriato Teles, como jornalista, ajudou-nos a compreender o mundo e os tempos, intermediando a curiosidade dos leitores com grandes figuras do pensamento e das artes.
Por exemplo: Eu conheci pessoalmente o José Afonso. Mas fiquei a conhecê-lo melhor depois de ler este livro.


O LIVRO. Este é um livro de memórias.
Memórias do Zeca, Zeca Afonso, Dr. José Afonso, José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos… Dos Cerqueiras, de Aveiro, na linha directa do avô Domingos José Cerqueira, maçon, livre-pensador de Aveiro, republicano de bigodes.
Memória também de António Silva Fragata Qualquer-Coisa Smith, o outro, o homem que José Afonso não foi, mas gostaria de ter sido, fora da sua personalidade pública.
É um livro de memórias do José Afonso na memória de Viriato Teles, o jornalista que mais terá privado com José Afonso.
A memória do Viriato é preciosa para fazer viver a memória do José Afonso.
Memórias que passam pelas páginas deste livro indispensável para quem queira conhecer e compreender o José Afonso.
Memórias ilustradas pelas objectivas, entre outros, de Paulo Moura, Joaquim Bizarro, Inácio Ludgero, Fernando Negreira e, acima de todos, o Joaquim Lobo e o Carlos Gil.
Memórias ilustradas e revisitadas que passam como fotogramas de um filme.
Memórias da realidade porque, como disse o José Afonso ao Viriato Teles: “A realidade é tudo: é aquilo que existe, aquilo que supomos de existe e aquilo que nós inventamos.”
Memórias do músico que não era músico – tinha consciência das suas limitações, sabia música de cor, fazia arranjos de cabeça, por vezes quase em silêncio, alguns dos quais fixados pelo Rui Pato, o Fausto, o José Mário Branco.
Memórias do homem que só sabia 2 ou 3 tons de viola, mas que imaginava melodias.
O homem que fazia música porque gostava, mas também porque era obrigado a fazê-la devido a um contrato.
Alinhava sons, tornava-os coerentes entre si, como quem faz um utensílio, disse ao Viriato Teles o José Afonso, um optimista por via indirecta.
Memórias do homem que correu aldeias a cantar.
E essas ficaram como as melhores recordações da sua vida.

Entro aqui com um dado da minha própria memória sobre o José Afonso (talvez o Adelino Gomes, que também lá esteve, partilhe essa memória).
Anos 70, ainda antes do 25 de Abril, na fábrica de papel da Abelheira.
A fábrica fora encerrada em 15 de Janeiro de 1973 e os trabalhadores resistiram aos despedimentos ocupando as instalações de São Julião do Tojal, Loures.
O José Afonso foi lá cantar uma noite. Eu estive lá como jornalista do Notícias da Amadora. A notícia é que teimou em não sair.
O José Afonso foi na qualidade de homem solidário. E, já que lá estava, cantou. Cantou “O que faz Falta…”, acompanhado por um coro de vozes de trabalhadores ao longo de meia hora, três quartos de hora… Sempre em crescendo, um crescendo de emoção e exaltação, com estrofes e versos improvisados sobre o refrão: O que faz falta é avisar a malta… animar a malta… juntar a malta… organizar a malta… libertar a malta… armar a malta…

Volto às memórias de José Afonso pela interposta pessoa do Viriato Teles.
Zeca e os outros.
De todos os que o seguiam, o acompanhavam, diz o José Afonso ao Viriato Teles que o Adriano talvez fosse o mais semelhante a ele próprio.
Como o José Afonso, o Adriano Correia de Oliveira também veio dos fados de Coimbra.
Mas o José Afonso deu às suas canções o nome de baladas, precisamente para as distinguir do fado de Coimbra.
Memórias mais remotas do José Afonso: o pai magistrado, a mãe professora primária, a tia praticamente sua mãe.
A infância turva. Aveiro, o Bié, Lourenço Marques.
Os futebóis adolescentes com a bola alugada ao Zé da Merda.
Ainda chegou a sonhar ser jogador de futebol. Jogou basquete nos Olivais, em Coimbra.
Os anos loucos da juventude. Os copos, o Gonzalez (José Carlos Gonzalez, seria?), o Pignatelli. O curso de Histórico-filosóficas.
A vida ambulante de professor: Mangualde, Alcobaça, Aljustrel, Lagos, Fuzeta, Faro, outra vez África. O 1º e o 2º casamento, os filhos.
Quanto podia entregar-se a si mesmo, o que fazia era ler, praticar actividades físicas (o judo em Campolide, por exemplo), ensinar os filhos…
O 1º disco, Fado das Águias, nos anos 50; a primeira balada, A Balada do Outono, em 1960.
Regista o Viriato Teles que da biografia do José Afonso fazem parte milhares de quilómetros para cantar… ou simplesmente para conhecer pessoas.
São assim as Voltas de um Andarilho.
Mais memórias: a actividade política, a prisão em Caxias.
É desse tempo Venham Mais Cinco: “Venham mais cinco. Duma assentada. Que eu pago já. Do branco ou tinto. Se o velho estica eu fico por cá.”
Em 1972, uma votação dos leitores do Diário de Lisboa levou o José Afonso ao Festival Internacional da Canção do Rio de Janeiro.
A canção – A Morte Saiu à Rua – e a interpretação foram incompreendidas por um público festivaleiro. Foi humilhado pela imprensa brasileira, com largas citações na imprensa portuguesa.

2ª paragem nas minhas próprias memórias sobre o José Afonso.
Dividiram-se as opiniões em Portugal. E o chefe de redacção do jornal República pediu-me um artigo sobre a participação do José Afonso no Festival do Rio.
Escrevi obviamente a favor do José Afonso mas não era isso que o chefe de redacção da República pretendia e esperava. Pediu-me para escrever outro texto, em sentido contrário, o que recusei liminarmente. E desafiei-o a não publicar o artigo, a censurá-lo, poupando talvez trabalho à Censura.
O artigo saiu em pé de página. A abrir a página vinha outro artigo encomendado a zurzir o José Afonso. Para além da diferença de conteúdo, o meu artigo vinha empastelado e praticamente ilegível.
Adiante.

Regresso às memórias do Viriato Teles sobre a memória do José Afonso, que é para isso que aqui estamos.
E eis que chegamos a Abril: uma espécie de deslumbramento, diz o José Afonso. A utopia parecia que estava ali mesmo, ao alcance da mão.
Só mais tarde chegariam as facturas do preço da independência e da lucidez.

A memória segue mais tarde pelos últimos anos de vida e de música do José Afonso.
Quando José Mário Branco e Júlio Pereira trabalham algum material disperso em cassetes…
… Que vem enriquecer a música popular portuguesa.
Música Popular Portuguesa? Alto aí. Isso vem entre aspas.
Conceito muito polémico, diz o José Afonso, citado pelo Viriato Teles.
Não sei se lhe chame música de texto, música social, música de intenção política, música de intervenção… São tudo conceitos muito indefinidos, diz o José Afonso.
Música é, com certeza.
E música, como diz José Afonso, que cria desassossego.
Diz José Afonso citado pelo Viriato Teles:
“Acima de tudo é preciso agitar, não ficar parado, ter coragem, quer se trate de música ou de política.”
E acrescenta: “E nós, neste país, somos tão pouco corajosos que, qualquer dia, estamos reduzidos à condição de homenzinhos e mulherezinhas. Temos é que ser gente, pá!”

O José Afonso faria agora 80 anos. Mas este livro do Viriato Teles, em boa hora publicado em edição revista e actualizada pela Assírio e Alvim, não é uma homenagem póstuma.
É um livro de José Afonso ao vivo, essencial para conhecer a vida, as ideias, a obra, desenvolvida numa exaustiva discografia anotada.
O Sérgio Godinho diz no Prefácio que “o livro do Viriato dá a conhecer muito melhor o Zeca.”
O livro é de facto essencial para conhecer um homem singular: José Afonso.
O homem que sonhava em cada esquina, um amigo, em cada rosto, igualdade.
E a utopia de uma cidade sem muros nem ameias, capital da alegria.
Leiam, divulguem, tratem bem este livro.
O Viriato Teles e o José Afonso merecem.

 Lido na apresentação de As Voltas de um Andarilho em Lisboa | Museu da República e Resistência, 17.Nov.2009

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