Como é que ele conseguiu?

A minha primeira impressão deste livro é a pesquisa exaustiva que o autor fez dos entrevistados. Quando a gente termina aquela leitura já estamos prontos para dar um mergulho na entrevista e já o fazemos com água na boca. Quase como quando um requintado cozinheiro envia para a mesa uma travessa apetitosíssima, suculenta, que a gente fica doido para devorar. Isso, para além do talento deste autor, que tem muito a ver com a honestidade profissional, do apuro e do contentamento de quem a escreve.

Recordo-me que há uns anos um jornalista gordo, talvez com pouco mais de 30 anos, pediu-me uma entrevista. Chegou a minha casa, sentou-se no sofá, colocou um caderno num joelho e disse-me: «Olhe, eu quero avisá-lo que vivi alguns tempos no estrangeiro e sei muito pouco de si». Eu levantei-me e disse-lhe: «Então faça o favor de sair e quando aprender volte cá». E nunca mais voltou.

«Bocas de Cena» é um livro excelente com uma dezena de entrevistados inatingíveis, e a pergunta é: Como é que ele conseguiu? A entrevista com a Amália é – que eu tenha lido – das mais conseguidas. A Amália era muito mais um ser falante do que um ser conversante e o Viriato, não sei com que artes mágicas, conseguiu desatarrachar-lhe a timidez de tal forma que deve ter tido uma grande mão de obra para a calar. Nunca visto.

Notável também a entrevista com o Léo Ferré, com a sua marginalidade à tona e que me fez lembrar a frase do Millôr Fernandes: «Não sou um homem livre, mas poucos estiveram tão perto.» Na linha da Juliette Greco.

O Chico Buarque, brilhante como sempre foi. O Marcel Marceau que lhe deu apenas dez minutos de conversa, mas para o tempo oferecido sacou-lhe uma entrevista riquíssima. E com o Yupanqui, um homem puro, fascinante.

Estas são as que mais me tocaram.

Estranhamente, a entrevista com o Mário Viegas não levantou fervura e era dele de quem eu mais esperava, porque o considero um dos actores mais brilhantes e uma das personalidades mais fascinantes que por aqui andaram. Ficará para outra vez, Viriato.

Apresentação de Bocas de Cena | Casino Estoril | 13.Maio.2003

Mais sugestões de leitura

  • Entrevista a A CapitalOpen or Close

    Um autor português de 47 anos já não sabia muito bem onde estava o 25 de Abril e resolveu fazer «contas à vida». À sua e à de nós todos. Juntou pontos - e não só de interrogação -, fez cálculos, recuperou memórias, e, após ser desafiado por uma editora, pôs mãos à obra. O livro está desde hoje nas livrarias com o título Contas à Vida - histórias do tempo que passa. São vinte conversas com vinte personalidades da vida pública portuguesa que têm algo a dizer - e dizem! - sobre o 25 de Abril.

    Ler Mais
  • O Parque e a genteOpen or Close

    As pessoas são sempre aquilo que de mais importante nos fica dos lugares por onde passamos. Quando ancorei em Lisboa, há mais de vinte e cinco anos, o Parque Mayer já não ocupava o lugar central da boémia artística de Lisboa que fora seu, por direito conquistado, durante várias décadas. Mas continuava a ser um espaço de encontro de gentes diversas, palco de histórias umas mais amorais do que outras, lugar de sonhos de todas as cores.

    Do programa de A Revista é Linda | Teatro Maria Vitória | 2005

    Ler Mais
  • O meu amigo FaustoOpen or Close

    Não é o Elvis Presley nem o Tommy Steel, já teve um cão que voava por impulso mictório, e agora dá guarida a Sócrates, um papagaio filósofo carregado de dúvidas metódicas e muito mais sabedoria do que a generalidade dos cronistas políticos e sociais. Chama-se Fausto Bordalo Dias e é um nome de referência (hoje diz-se incontornável, mas eu sou de outra escola) da música popular portuguesa.

    A Capital | 27.Mai.2005

    Ler Mais
  • Eleições, mentiras e algum vídeoOpen or Close

    O putativo futuro primeiro-ministro, Santana Lopes, foi à Televisão defender a evolução na continuidade que seria a sua nomeação, se o PR seguisse os conselhos do PSD e do CDS e não convocasse eleições antecipadas. Diz Lopes que Sampaio deve deixar governar a maioria parlamentar, nomeando-o para o cargo deixado vago por Durão Barroso. E apresenta como razão maior o facto de também Sampaio ter desistido a meio do mandato de presidente da Câmara de Lisboa, sem que tal obrigasse a novas eleições.

    Para Consumo da Causa | 7.Jul.2004

    Ler Mais